sábado, 15 de outubro de 2016

Os índios devem gozar dos privilégios da raça branca

O mulato deve ser a raça mais ativa e empreendedora, pois reúne a vivacidade impetuosa e a robustez do negro com a mobilidade e sensibilidade do europeu; o índio é naturalmente melancólico e apático, estado de que não sai senão por grande efervescência das paixões, ou pela embriaguez: a sua música é lúgubre, e a sua dança mais ronceira e imóvel que a do negro.

A língua geral no seu mecanismo parece provir de uma antiga civilização; e ela é singularmente rica e sonora, como a dos caraíbas do baixo Obenoque.

Quando dentre os nossos reis se alçará um grande legislador, que dê nova forma ao índio, e ao negro? Que lhes dê o pleno gozo dos frutos do seu trabalho, e a liberdade civil, que depende da educação moral e intelectual do povo?

Segundo as nossas leis os índios devem gozar dos privilégios da raça branca: mas este benefício é ilusório; a pobreza em que se acham, a ignorância por falta de educação e as vexações dos diretores e capitães-mores os tornam abjetos e mais desprezíveis que os mulatos forros. Os juízes e autoridades índias associam-se às vexações dos brancos contra a sua própria raça, porque querem já ser mais nobres, e terem nos brancos patronos e amigos. Uma distinção que está ao alcance dos índios é o sacerdócio.

Enquanto não houver boas estradas para carros, os índios podem empregar-se em tropeiros e condutores – outro destino que se lhes pode dar é o das manufaturas, da pesca, e navegação, e ainda mesmo o de soldados, conquanto que os não matem à fome, sobretudo para pedestres e caçadores. Na agricultura são mais próprios para abrir valas, e derrubar mato virgem, que para puxar pela enxada; também são excelentes para peões, e guardas de gado; reservando-se para trabalhos aturados da lavoura os negros, brancos e as raças mistas.

Cumprirá estabelecer intendências de agricultura nas províncias, com um intendente, um secretário, e um assessor, deputados à maneira que instituiu no México Carlos III, para que vigiem não só sobre a lavoura, mas sejam os protetores dos índios contra as vexações dos magistrados, e capitães-mores: mas para esses novos lugares deve haver grandíssima escolha.

Qual o índio manso do Brasil que goza de uma medíocre fortuna? Que tenha uma casa, [ilegível] ou ao menos um escravo? Quando há muitos mulatos e negros, que vivem abastados a seu modo?

Animar os índios, isentando-os nas terras, que cultivarem de novo, do dízimo por dez anos.

Fazer uma Arca de Piedade para o bem e civilização dos índios e caboclos, que não esteja à disposição e debaixo da administração das juntas de fazenda, mas sim do bispo e intendente de agricultura.


Extraído de SILVA, José Bonifácio de Andrada e. Projetos para o Brasil. São Paulo: Cia. das Letras: Publifolha, 2000. p. 64-5.

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