sexta-feira, 4 de setembro de 2015

OSPB, 1979

Duas páginas do livro "Construindo o Brasil": Educação Moral, Cívica e Política, de G. Galache, F. Zanuy e Maria T. Pimentel. Trata-se de um livro para a disciplina de OSPB dirigida ao Segundo Grau - o equivalente do Ensino Médio de hoje.

O livro é de 1979.

As duas páginas selecionadas referem-se a dois "heróis" da Pátria: Tiradentes e Caxias. Clique nas imagens para vê-las em tamanho maior.





terça-feira, 1 de setembro de 2015

O depoimento de Olaudah Equiano sobre sua captura e escravização - século XVIII

Olaudah Equiano foi um homem de origem africana capturado em sua terra natal ainda criança, levado para os Estados Unidos e vendido como escravo. Ainda nos Estados Unidos consegue a sua libertação e viaja para a Inglaterra, onde vive até sua morte. No ano de 1789 escreve "A interessante narrativa da vida de Olaudah Equiano", em que descreve sua infância, sua captura, sua viagem e vida como cativo. Sua obra tornou-se importante como estímulo às campanhas britânicas contra o tráfico de escravos. 

A seguir você irá ler trechos dos primeiros capítulos do livro de memórias de Olaudah Equiano, em que ele descreve sua vida enquanto criança e detalha sua captura e escravização. 



Equiano, do povo Igbo, nasceu em 1745 no interior da região em que hoje é a atual Nigéria. Embora morasse em uma pequena comunidade, afirmava que o reino do qual fazia parte era um dos maiores que conhecera “tanto em extensão quanto em riqueza, a qualidade do cultivo do solo, o poder de seu rei e o número e a disposição guerreira de seus habitantes”. Acreditava ter nascido longe da costa “pois nunca havia ouvido falar de homens brancos ou europeus, nem do mar”. Seu pai era um dos chefes da comunidade e, em conjunto com outros, decidia disputas e punia crimes.



Equiano descreve sua infância como uma época feliz, em que ficava ao lado da mãe, e vivia em sua comunidade, acompanhando os casamentos, assistindo as danças festivas, apreciando os perfumes dos quais seu povo gostava muito. Suas casas deveriam ser de bom tamanho, pois deveriam acomodar “as famílias e os escravos”. A escravidão, portanto, já era conhecida de Equiano e do povo Igbo. Quando, por sua comunidade passavam comerciantes armas, pólvora, chapéus, peixes, por vezes as pessoas da comunidade de Equiano vendiam escravos àqueles comerciantes.

“Às vezes nós vendíamos sim escravos para eles, mas eles eram apenas prisioneiros de guerra, ou aqueles que entre nós havia sido condenado por sequestro ou adultério, e alguns outros crimes, que nós achávamos odiosos”.

Por vezes, comerciantes negociavam para que os próprios chefes das comunidades capturassem habitantes vizinhos e os vendessem escravos.

“Quando um comerciante quer escravos, ele pede ao chefe por eles, e os tenta com suas mercadorias. Não é extraordinário se nesta ocasião ele cede à tentação e se mostra pouco firme, e aceita o preço da liberdade de seus companheiros com pouca relutância aos argumentos do comerciante. Desta forma, ele cai sobre seus vizinhos, e uma desesperada batalha se inicia. Se ele vence e captura prisioneiros, ele gratifica sua avareza vendendo-os”.

Equiano, porém, faz questão de dizer que a escravidão que ele conhecia, em sua terra, era muito diferente daquela que ele irá encontrar na América:

“Conosco, eles [os escravos] não trabalham mais que outros membros da comunidade, mesmo seus mestres; sua comida, roupa e acomodações eram quase as mesmas que as deles (exceto que não lhes era permitido comer com aqueles nascidos livres) (...) Alguns daqueles escravos tinham seus próprios escravos sob eles como sua própria propriedade, e para seu próprio uso”. 

Era o mais novo de 7 irmãos e, por isso, preocupava-se com a possibilidade de sequestro. Sempre que os adultos iam ao campo trabalhar nas lavouras, as crianças ficavam de vigília, tentando evitar que sequestradores as capturassem. Aos 11 anos, porém, ele e sua irmã, foram sequestrados perto da casa.

“Um dia, quando todos de nosso povo tinham saído para o trabalho como sempre, e apenas e minha querida irmã ficamos em casa, dois homens e uma mulher entraram por nossos muros, e em um momento nos cercaram, e, sem que tivéssemos tempo de chorar ou resistir, tamparam nossas bocas, e correram conosco para a mata próxima. Ali amarraram nossas mãos e continuaram nos carregando o mais longe que conseguiam até à noite, quando chegamos a uma casa pequena, onde os ladrões pararam para se refrescar e passar a noite. Fomos então desamarrados, mas não pudemos comer nenhuma comida; e, dominados pelo cansaço e pela tristeza, nosso único alívio foi dormir um pouco, o que adiou a nossa desgraça por pouco tempo”.
Logo a seguir foi separado da irmã e, após algum tempo, deixado com uma família, para trabalhar como escravo. Durante cerca dos 7 meses seguintes, sem saber onde estava, e sem condições de fugir, Equiano foi vendido e comprado várias vezes. Em alguns momentos, trabalhava para famílias que o tratavam muito bem; em outras, era maltratado.

Em determinado momento, foi comprado por um grupo de pessoas que o levou para o litoral, após uma longa viagem de barco.

“O primeiro objeto que me saltou aos olhos quando cheguei à costa foi o mar, e um navio negreiro (...) Tudo isso me encheu de espanto que rapidamente se converteu em terror quanto eu fui levado à bordo”. 

Equiano revela que, até aquele momento, não sabia o que estava acontecendo com ele:

“Quando eu olhei pelo navio também e vi um grande forno fervendo, e uma multidão de pessoas negras todas diferentes acorrentadas juntas, cada um com semblante que expressava desânimo e tristeza, eu não duvidei de meu destino; e, dominado por horror e angústia, eu caí paralisado no deque e então desmaiei. Quando me recuperei um pouco encontrei algumas pessoas negras perto de mim, que eu acredito que foram algumas das que me trouxeram à bordo, e estavam recebendo seu pagamento; eles falavam comigo buscando me animar, mas era em vão. Perguntei se não seríamos comidos por aqueles homens brancos horríveis, com caras vermelhas, e cabelos soltos”. 

Equiano foi, então, colocado no porão do navio, e lhe foi oferecido comida. Como ele não quis comer, foi amarrado e chicoteado.

“Eu nunca havia experimentado nada daquilo antes”.
Foi apenas no porão do navio que, conversando com outros presos, descobriu que seria levado para trabalhar para as pessoas brancas.

Equiano fica praticamente todo o tempo no porão do navio durante a viagem. O lugar era absolutamente pestilento afirmava:

“o lugar era pequeno, e com o calor do clima, somado ao número [de pessoas] no navio, que estava tão cheio que mal dava para alguém se virar, quase nos sufocava”. 

Muitos adoeciam e morriam. Outros, desesperados diante da situação, esperavam uma oportunidade para cometer suicídio, pulando no mar.

Ao chegar na ilha de Barbados tudo era diferente:

“Cada objeto era novo para mim, e todas as coisas me enchiam de surpresa. O que primeiro me chamou a atenção foi que as casas eram construídas em andares, e em outros aspectos diferentes daquelas da África: mas era mais surpreendente ver pessoas cavalgando cavalos. Eu não sabia o que aquilo significava; e de fato eu pensei que aquelas pessoas eram totalmente feitas de artes mágicas”.

Ao serem desembarcados em Barbados, o objetivo era serem vendidos:

“Quando um sinal era dado (como a batida de um tambor) os compradores corriam junto ao pátio onde os escravos estavam confinados, e escolhiam qual lote gostavam mais. O barulho e a algazarra com os quais chegavam, e a ansiedade visível nos semblantes dos compradores, só servia para aumentar as apreensões dos Africanos amedrontados (...) Desta maneira, sem escrúpulo,  parentes e amigos eram separados, para nunca mais serem vistos novamente. Eu me lembro (...) que havia vários irmãos que, na venda, foram vendidos em diferentes lotes; e este momento foi muito comovente ao ver e ouvir seus choros na despedida”.

Adaptado dos capítulos 1 e 2 da obra "The Interesting Narrative of the Life of Olaudah Equiano",
escrita por Olaudah Equiano. Seleção e tradução por Antonio Fontoura.